Levar à mítica vila de Sintra um festival de música alternativa, capaz de abarcar os territórios pop, folk, rock e electrónica foi aquilo a que se propôs a organização do Sintra Misty. Para cumprir esse objectivo levou aos três palcos do festival um total de vinte e quatro concertos, durante três dias, de 15 a 17 de Outubro.

Os belgas Dez Mona foram os primeiros a subir ao palco do Centro Cultural Olga Cadaval. Na estreia em Portugal o quinteto surpreendeu com a sua fusão de jazz e música contemporânea assente, sobretudo, no encontro do contrabaixista Nicolas Rombouts com a voz singular do vocalista Gregory Frateur, que confessou estar «a tentar aprender português. Não é nada fácil». Ao nosso país vieram apresentar o terceiro álbum, “Hilfe Kommt”. Além de temas desse registo, como ‘Get Out Of Here’, ouvimos ainda uma versão soberba de ‘Take care of business’, de Nina Simone.

Rodrigo Leão foi o senhor que se seguiu no palco principal, com um dos últimos concertos da tour promocional do álbum “A Mãe”. «É um prazer muito grande estar aqui esta noite», afirmou o músico. Ao vivo as suas composições são ainda mais soberbas e isso é fruto, também, do lote irrepreensível de músicos que o acompanha, entre os quais a cantora Ana Vieira, detentora de uma das mais singulares vozes nacionais, que pudemos ouvir em pérolas como ‘Voltar’, ‘Sleepless Heart’, ‘La Solitude’, ‘La Fête’ ou as esperadas ‘A Casa’ e ‘Passion’. Já a acordeonista Celina da Piedade interpretou ‘Alfama’, clássico dos Madredeus, e Nicolas Rombouts e Gregory Frateur, dos Des Mona, regressaram a palco para interpretar ‘Deep Blue’, no original com Sónia Tavares. Em dia de aniversário houve ainda tempo para os músicos surpreenderem Rodrigo Leão, cantando e tocando os tradicionais “Parabéns a Você”.

Pelo Palco Optimus Discos passaram na primeira noite Tó Trips com Tiago Gomes (e o espectáculo/road movie inspirado no livro “Vi-os Desaparecer na noite”, de Jack Kerouac) e Mazgani, que continua a promover o álbum “Songs of Distance” (2010). Já as Misty Sessions acolheram a cantora, pianista e compositora Nicole Eitner, Sandy Kilpatrick e um DJ set de Rui Miguel Abreu.

Ao segundo dia de festival Tiago Bettencourt abriu as hostes pelas 17h, com os álbuns “O Jardim” e “Em Fuga” debaixo do braço. Casa composta para receber o músico, que deu início à actuação com ‘Caminho de Voltar’. Acompanhado pelos Mantha, que ao vivo assumem a forma de quinteto, com três elementos na secção de sopro. O cantor foi intercalando as suas músicas com algum do humor meio trapalhão que lhe dá piada. «Hoje não vou falar muito, pois temos apenas 50 minutos para tocar», referiu. ‘Tens Que Largar a Mão’, ‘O Jogo’, ‘O Labirinto’, ‘O Lobo’, ‘Só Mais Uma Volta’, ‘Canção Simples’ e ‘Chocámos Tu e Eu’ foram algumas das músicas que o ex-Toranja levou ao Sintra Misty. Portugal tem vários cantores/compositores da área pop/rock/ folk. Tiago Bettencourt é, sem dúvida um deles, e um dos mais interessantes da sua geração.

Enquanto isso, no Palco Optimus actuava Mendes, vocalista dos portuenses Os Azeitonas, e João Só, de João Só e Abandonados, para apresentar o EP “Mendes e João Só”, mais um com etiqueta da Optimus Discos. Duas guitarras, duas vozes e temas simples mas genuínos que ficam no ouvido à primeira audição, como ‘Só A Ti’, ‘Vai Por Mim (Cimento No Coração)’.

Saiu Mendes, ficou João Só e entraram em palco os Abandonados. A banda MTV Linked levou ao Olga Cadaval a sua boa disposição e os temas que tão bem conhecemos, como a «balada intergalática» ‘A Marte’, ‘Meu Bem’, ‘Mais Uma Canção de Amor’, ou ‘Canção de Isqueiro’, esta última dedicada ao pai do vocalista, por ser a sua favorita. ‘Amanhã Logo Se Vê’, do segundo álbum, a editar no início de 2011, foi a surpresa apresentada em Sintra.

De volta ao palco principal ouvimos Joan As Police Woman. De top e calças pretas brilhantes a condizer com a guitarra que trazia em punho, a Ex-Anthony & The Johnsons e e ex-Nick Cave, elemento da banda de suporte de Rufus Wainwright e amiga do eterno Jeff Buckley referiu que «é sempre bom estar de volta a casa, a Portugal. Estou a tentar convencer-me de que um dia vou morar aqui». ‘Save Me’ e ‘We Don’t Own It’, do primeiro álbum, “Real Life”, bem como uma versão de ‘She Watch Channel Zero’ (Public Enemy), que consta de “Cover”, o registo mais recente, foram alguns dos pontos altos do concerto. Com novo disco na fornalha, cuja edição está prevista para 2011, Joan aproveitou também para apresentar alguns dos novos temas, entre os quais ‘Magic’ e ‘Say Yes’. Prometido ficou um regresso a Portugal, lá para Fevereiro ou Março.

Pelos vários palcos do Sintra Misty passam ainda Manel Cruz, o homem dos Ornatos Violeta, Pluto e e Supernada, com um dos raros concertos do projecto Foge Foge Bandido em promoção a “O Amor Dá-me Tesão/Não Fui Eu Que Estraguei”; Mark Kozelek, figura de proa dos Red House Painters e forte ligação a Portugal em formato intimista e a solo; Walter Benjamin, Márcia, Gomo, num formato acústico; Rui Miguel Abreu, a marroquina Hindi Zahra, Mayra Andrade, Emmy Curl, Frankie Chavez, Minta, Noiserv, Piers Faccini e Lloyd Cole, não com os Commotions, mas com o Small Ensemble. Tal como referiu Rodrigo Leão na abertura do Sintra Misty, «esperamos que este festival se prolongue por muitos anos»


Samuel Cruz

João Só e Abandonados - Meu Bem

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